Sirvam nossas façanhas…

Esse texto não foi escrito depois da final da Copa do Brasil. Escrevo mais de 24h antes do primeiro jogo, enquanto ainda consigo ter os últimos suspiros de lucidez antes de ser envolvida na famosa “função de jogo”.

Não que tenha grande função de jogo. O Estado está em bandeira preta. As UTIs estão lotadas e infelizmente os números de mortos por conta do Coronavírus são os maiores de todos os tempos no Rio Grande do Sul. Mas o esporte, essa prática lúdica de entretenimento, ganhou importância exagerada na nossa sociedade e economia. 

Enfim, enrolei essa abertura do texto para, finalmente, no terceiro parágrafo dizer que o título é um recurso fácil de engajamento chamado click bait. É uma isca para o desavisado compartilhar esse conteúdo, mesmo até sem ler. Os mais experientes não usavam essas expressões em inglês, chamavam de “pega-ratão”. Expressão que honestamente prefiro.

Mas então: venho aqui com esse “pega-ratão” para fazer diferente de certos dirigentes que pregam contra alguma coisa só depois que não podem mais se beneficiar delas. Me refiro ao episódio que foi defendida a profissionalização da arbitragem ao final do campeonato brasileiro como bode expiatório para atividade de campo. Não é que eu não concorde com a profissionalização, mas eu falo isso o ano inteiro e não só quando me é politicamente interessante.

Minha proposição é de que agora que a Copa do Brasil passou o Grêmio possa finalmente prestar atenção e se organizar de fato e não apenas da boca para fora. 

Sirvam nossas façanhas de modelo à toda terra após essa final da Copa do Brasil. 

Um clube de futebol profissional deve e merece ser administrado como um clube de futebol profissional. Não importa o resultado da final, peço que se aprenda que uma campanha como a de 2020-21 sirva de aprendizado do que não se pode cometer, principalmente em um ano de crise. A pior coisa em uma crise é a falta de planejamento e a criação de uma expectativa irreal. 

Não podemos começar um ano com contratações infelizes como foi o que passou. Não importa a conversa pra boi dormir que o Romildo diga, o Grêmio contratou mal na temporada que passou (“pra boi dormir”, outra expressão usada há não muito tempo e que adoro). A falta de planejamento se evidencia quando se contrata jogadores que simplesmente não se encaixam no esquema tático.

Será que a mudança de um futebol propositivo e de posse de bola para um modelo reativo e de domínio de espaço foi intencional? Porque se foi, é pior ainda. Alguém está enganando alguém e todos estão enganando uma torcida. Notamos que deixar nossa zaga completamente exposta e dependente de brilhantismos individuais não foi a melhor opção durante o ano, vamos repetir essa ideia? 

Sei lá, a temporada passada foi a do empate. A temporada do abandono do campeonato brasileiro e da equipe que decolou apenas por duas semanas (em novembro) porque foi isso que a preparação física permitiu (e olha a tabela do campeonato estava pronta desde junho).

Diferente de um certo dirigente que só reclamou porque o campeonato acabou, e não o favoreceu, escrevo isso antes.

Antes dos resultados das duas partidas para dizer com consciência tranquila que se o Grêmio venceu, foi apesar de tudo isso. E se perdeu, foi também por conta de tudo isso. 

Renato Portaluppi. No dia 27 de fevereiro, tanto o Grêmio quanto o técnico não tinham certeza se seguiriam o resto da temporada.

Finalizo com o importante fato que até o momento não sei se no dia 8 de março os atletas do Grêmio vão ainda responder às ordens de Renato Portaluppi. 

Renato é alguém que sou eternamente grato por esse tempo no Grêmio e por viver esse sonho louco que é transformar esse clube administrado como aquela padaria de Guaporé, em algo maior que os esforços políticos transparecem fazer. 

Estou falando de 15 dias do passado e não sei quem é o técnico da temporada 2021 e sabe o que é pior? Eu não sei se o próprio Grêmio sabe.

Se tudo ocorrer mal, estaremos jogando a primeira fase da Libertadores em breve. Desastre.

Existe um esforço HERCÚLEO de fazer algo nas coxas e não é um problema só gremista, mas nossa incompetência não nos faz tirar proveito desse cenário generalizado no nosso esporte. Vivemos pela lei do menor esforço.

Sirvam nossas façanhas de modelo à toda terra” diz o hino estadual. Esse é o pega-ratão que provavelmente não foi entendido. Afinal de contas, “nossas façanhas” podem muito bem ser algo como: “Veja tudo isso que foi feito e não repita os mesmos erros!”.

De modelo à toda terra.

Fane Webber

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